quinta-feira, 26 de novembro de 2009

PEDAÇOS DE AMOR EM SOPA DE LUAR



Pedaços de amor em sopa de luar
Mas nenhuma receita me rende
Nada sacia minha fome
Nada mata minha sede
Nada me acalanta o sono

Eu nada entendo de poesia de luar
Nem de cauda de estrelas
Eu nada entendo de feitiços, mandingas ou varinhas de condão
Eu nada entendo de amor, meu amor
Eu nada entendo de vida, minha vida

Pedaços de amor em sopa de luar
Mas minha fome me devora
Tenho a fome dos deuses
A sede dos forasteiros
A ânsia das virgens
A dor das parideiras

Eu busco o amor em verso e flor
Eu busco carinho neste meu caminho
Eu busco afeto, um seio que me abrigue
Um ventre que me abrace
Um corpo que me abrase
E mate esta minha fome noturna.

Radyr Gonçalves

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

ESTIGMAS





Fios de poesias me enlaçam nesta tarde ensolarada. Eu vejo o amor no prisma de um vitral na santa capela. Não pense no amor como algo sofrido. Pense no amor como um parto. O amor é um misto de vida e quase morte. Não cabe nas digitais da minha alma tanto sofrer por amor. Mas eu notei que estas cicatrizes são belos mosaicos artísticos que a vida teceu aqui dentro. Hoje entendo bem mais de flores e versos. Hoje quando vejo um colibri a namorar uma primavera vermelha vejo Deus. Não entendia nada de ornamentos e perfumes. O amor me deixou suave. Leve. Embora breve, às vezes, o amor é curativo. Eu tenho aqui no meu peito um estigma que lateja dia e noite. Me faço de Jó pra melhor passar. Nesta tarde ensolarada eu olho o vitral da capela de São Camilo de Lellis e me sinto perdoado, mas suplico um milagre maior. Eu sinto o latejar renitente da minha ferida aberta. Eu choro, imploro um milagre, mas o céu silencia. Mas eu sou belicoso, tenho alma aguerrida. Noutra tarde volto aqui para tecer rezas, quem sabe o santo se compadeça e me valha...

Fios de poesia me enlaçam nesta tarde.

Radyr Gonçalves

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

IPANEMA VAZIA




Moça vestida de praia e sol
Solitária Ipanema
Cem Cecílias escrevem um poema
De um fim de tarde sem Deus

Gaivotas conversam com o horizonte
O céu no cair do sol é cor do inferno

Eu esqueci meus passos na areia
Pensei no vazio de um deserto
Refiz pensamentos de grão em grão
Pensei nas bocas fáceis, nos risos das hienas
Na ironia das putas, na praia sem dono

Moça vestida de bronze
Na Ipanema da minha tarde
Mil prostitutas enfeitariam a praia
Mas uma moça apenas desenha a paisagem

Pelicanos exorcizam peixinhos
E eu já não tenho fé em nada
Um barquinho ancorado parece chorar pescadores
Refaço meu caminho de volta na orla
E já não vejo a moça

Agora a paisagem se anula
Não vejo mais o pórtico, nem o mirante
Eu já sei qual a cor do céu quando o sol se fecha
Não sei quantas quadras há daqui pro inferno deste dia tão quieto
Tão sem cara de Ipanema.


-
Radyr Gonçalves

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

EGOÍSMO - 1º LUGAR NO CONCURSO PROSA E VERSOS DE PRIMAVERA




´´De nada serve meu amor nestas tardes de primavera cinza´´

Esta chuva seca que agora banha meus olhos são lágrimas virgens de novembro. Eu choro de solidão nesta noite e a noite chora pela falta da lua. Nada me remete saudade. Não me redimo de nada, não me lembro especialmente de ninguém. Meus almanaques estão vazios, assim como meus álbuns de fotografias. O vinho, quieto, descansa na taça solitária. Eu sinto solidão, mas nenhuma solidão especial. Ando tão egoísta que acho que chorar de solidão me serve como status. Não tenho me apaixonado. Não tenho cativado flores. Não tenho inovado em simplesmente nada. Minhas poesias estão tão antiquadas, meus escritos tão cansativos. Eu choro para chamar atenção de mim mesmo. Não tenho me decepcionado com nada. Não tenho visto o vôo das arribaçãs lá do alto da torre de Santa Rita. Não tenho admirado o pôr do sol do Potengi. Faz tempo que não amo um amor desses de uma noite. Esta chuva seca que nubla minhas vistas, estas nuanças de tristeza inventada é tudo forçado... Eu não tenho nada. É puro egoísmo.


Radyr Gonçalves

terça-feira, 17 de novembro de 2009

REFLEXOS DE NOVEMBRO


Ah, esses risos de novembro
Estes olhos por trás das portas
Estas bocas dentro de outras bocas
Estes pés, estas pernas, estes pasmos

A primavera beija um beija-flor
Eu me apaixonei por uma margarida
Que ama um girassol
Que tá nem aí pra vida

Ah, estes sonhos de estações
Estes seios que se mostram na transparência das águas
Estes braços que se abraçam nos braços da tarde
Estas pegadas, estas digitais, estas taras de primavera

Eu beijo novembro como beijo um beijo virgem
Eu caio em teus braços, calado
Ouvindo a música da tua voz
Sentindo a pétala da tua tez
Alva, terna, eterna, cariciosa
Única
Eu fico pensando
Quando será novembro outra vez?

Radyr Gonçalves

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

POESIA PARA O FILHO QUE NÃO TIVE




O filho que não tive
Não ia gostar de poesia
Pobrezinho
Não saberia o gosto que se tem
Escrever sob o olhar atento dos astros

Não saberia o sabor do beijo de um verso cru
Não saberia o arrepio que dá quando a inspiração
Sopra doce ao ouvido

O filho que não tive
Seria muito sério
Não iria aos cabarés, não gemeria nas alcovas
Não ia gostar de rock, cerveja, carnaval

O filho que não tive seria ateu
Não leria gibis, nem acreditaria nas lendas da velha infância
O filho que não tive iria gostar de western, de meninas brejeiras, de seios fartos

Seria calmo, ponderado, teria profissão definida, escreveria o básico
Mas tadinho, não leria Drummond, Neruda, Vinicius, não ouviria Tom

Passaria pela vida, meu Deus, sem saber o que é um verso...
É isso seria triste demais
É muito triste, meu Deus
Passar por esta vida
Sem ser poeta
Sem notar que as flores
São muito mais que beleza
As flores
São versos de Deus
Com elas, meu filho
Deus escreve este poema
Que chamamos primavera.


-

Radyr Gonçalves

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Canção doída ou manhã amorosa




Chove coração
E lava a poeira
Desta alma
Suja
-
Eu sei que é passageira
A dor que agora rebenta
Eu sei que é volátil
Esta mágoa que me prende
-
Clama peito meu
Geme que a dor se aquieta
Rasga o peito
Fia um novo coração
Com estas veias de seda
-
Eu sei que é doloroso
Peito meu
Eu sei que é quase morte
Esta tua agonia
-
Mas agüenta peito meu
Que a chuva varrerá
Esta dor
Logo a noite passará
E estarás nos braços
De uma manhã amorosa.

-

RADYR GONÇALVES

domingo, 1 de novembro de 2009

PINTURA




Nua, perfeita como o dom de Monet
Abre a tela que eu quero entrar
Antes que a tinta descanse.

-


Radyr Gonçalves

sábado, 31 de outubro de 2009

Do não procurar o amor


Amar é um barco em vão
Na imensidão dos sentimentos
Deixe o dia morrer na tardinha chuvosa
E verás o amor partindo sem ao menos acenar

Não procure o amor, meu amor
Ele não está na Praça Cívica, nem nas migalhas dos pombos
Não está no doce da maçã do amor
Nem no veneno edênico

O amor, meu amor
Não está em lugar algum que possas achar
O amor navega num labirinto de mar que se recria em cada onda
Teu coração, meu amor, não suporta o amor
Teus ombros, meu amor, não suportam o amor
Ninguém suporta o amor, meu amor...

Não procure o amor nas notas maviosas da melodia de um canário Belga
O amor, meu amor, não gosta de passarinhos
O amor corta os continentes com seus versos de promessas
O amor promete demais, meu amor...

Já dizia Diogenes, amor:
O amor é mestre em prometer...

Procure outra coisa pra fazer.
-
Radyr Gonçalves

MENINO DE RUA

Foto: José Ferreira


Olhou para o céu, contou as estrelas, ajeitou a lua com os olhos, disse boa noite pra Deus, forrou bem os jornais no chão e adormeceu como se fosse o dono da noite.

-
Radyr Gonçalves

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

VÍTIMA

Foto de Marco Pedro

Teus seios me olham
Como se olhassem o amor
Não sou o amor, meu bem
Sou vítima, apenas.

-
Radyr Gonçalves

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A serpente, a picada mortal, o orgasmo




Sob olhar hipnótico da serpente
Nutro um orgasmo
Que rebenta
Na hora certa do bote

Picada letal.


-


Radyr Gonçalves

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ROUXINOL




Eu preciso é de um rouxinol
Que cante um canto que me anime um canto
Que chore um choro que me cale o choro
Que abra pra mim o sol e que me doe às fases da lua

Eu preciso é de um rouxinol
Que me acorde num acorde de uma melodia suave
Que me leve bem leve pra outra dimensão
Que me cative, me nutra de paz, que carregue meu fardo
Que não me julgue, não me entregue ao carrasco mordaz
Que vive a ameaçar-me...

Eu preciso é de um rouxinol
Que me enlace num laço de sete nós
Que me prenda no bico
Que me envolva nas asas
Que me leve ao cume de um monte
Que me faça par
Que me faça pássaro
Que me faça amar
(Novamente)...

Eu preciso é de um rouxinol que me ensine a cantar.

-

Radyr Gonçalves

domingo, 18 de outubro de 2009

Nostalgia dominical





Tem uma leva de melancolia nos meus olhos
Tem uma saudade estampada nos umbrais da minha alma
Que faz jorrar este choro dominical

Eu era menino quando fiz um aviãozinho de papel
Que cruzava meu céu particular
Eu tinha toda a inocência do mundo
Quando meus barquinhos de crepom cruzavam meus mares de lama

Tem um cenário de deserto no meu quarto
Tem uma corrente triste que vez por outra o vento trás

São inquietantes certas lembranças do passado

Eu era criança quando as flores bailavam nas primaveras
Eu era santo quando rezava acreditando em milagres

Tem uma levada de nostalgia nestas minhas recordações
Eu escrevo tudo isto com os olhos inundados
É que vejo que a ampulheta do tempo consome as folhas
Das histórias que eu criava no passado...

Eu ainda consigo ver meu aviãozinho cortar os céus das tardes de outro tempo.

Radyr Gonçalves

sábado, 17 de outubro de 2009

A BUSCA


Um encantador de enigmas
Bordando primaveras
E guiando barcas acostumadas a voltar

Sou eu

Que brinco no carrossel da vida
E sigo a galope rumo às fronteiras de guerra

Estou em busca de um hálito inigualável
De uma boca que eu beije e me deixe marcas
Estou em busca de cicatrizes que valham a ferida

Eu sei amansar as nuvens
Sei domar tempestades
Por isso estas minhas venturas no caminho

Viajante sem alparcas, sem bornal
Vacilante das alcovas
Adúltero das noites

Estou em busca do silêncio de um seio que me aquiete
De uma mulher que me prenda na armadilha das suas pernas
E me faça presa fácil do seu chamado
Que me faça escravo
Assim serei rei.


-
Radyr Gonçalves

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Estilhaços de estrelas




Estilhaços de estrelas
No céu da minha noite
Vazia
Estilhaços do meu vazio
No meu céu de estrelas quebradas.

-
Radyr Gonçalves

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A BUSCA SILÊNCIOSA




O trem quebra por um instante os raios do sol que banham a minha janela. A única canção que ouço nesta tarde é a desarmoniza música dos pés do trem de ferro deslizando célere nos trilhos fantasmas. Eu sinto falta de alguma coisa que sei o que é e não sei descrever. É falta de algo que não posso tocar, mas que me envolveria se aqui chegasse. Nada chega ao meu endereço. Os correios em greve, o leiteiro morto, o lixeiro demitido. Ninguém passa pela calçada. Nada além do trem quebra o cristal do silêncio. Eu sinto falta de algo místico. De algo que me arrepie a medula, que mova minha glândula tireóide. Algo que arrebata a minha alma. O trem vai e só volta amanhã, quando ele passar e quebra o silêncio é como um brado de aleluias para mim. Eu queria acreditar em Deus, eu oraria por um trovão ou pela voz do vento, só pra quebrar este tempo parado.


-

Radyr Gonçalves

A TRISTEZA BORDADA PELA NEBLINA








Nada entendo da neblina

Que mancha a paisagem

Da minha leve miopia



Nada busco na névoa triste

Estou aqui apenas por que me sinto perdido

-

Os vendilhões cobram caro por um cobertor

Eu careço de um corpo que me aqueça

De uma sopa de lua quente

De algo fervente que me acenda

-

Eu preciso andar sobre brasas

Pois nada entendo de vulcões

O frio aqui dentro me destrói

Não tenho lareira, nem um amor que me acenda uma fogueira

Estou só neste quase inverno que a noite bordou

-

Nada entendo de garoa

Esta cena que me abate

É apenas o acaso pintado

Que está aí pra me atormentar

-

Preciso rezar por fogo

Por uma chama, uma luz, uma fagulha particular

A névoa me embaça as vistas

Eu preciso acordar com os raios do sol

Roubando um sorrindo da minha face.



-

Radyr Gonçalves

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O POVO NA WEB

CADÊ MINHA INSPIRAÇÃO

A VERDADE SOBRE CERTOS ANJOS


Nas catedrais, anjos e mais anjos
Eles preferem a teologia; eu o silêncio

Eu choro um choro não sentido pelos entes divinos
Pelas minhas veias fagulhas do inferno contaminam-me

Em cada poema renasce o poeta
Só eu vou morrendo entre as santas letras

Um anjo explica a trindade, como é difícil a vida dos deuses!

Aquela multidão de crentes gritavam: Vão pro inferno!

Anjos são ateus, pra vocês que não sabem!

Conheço um anjo que é uma flor
Vejo falar de um que é todo espinho

Quem entrará na Canaã prometida?

Um fio de óleo ungido rolou em minha face
Meu anjo preocupa-se tanto com o meu novo nascimento que esquece que eu já morri

Esse anjo num é legal, é um herege

Que coisa feia, seu anjo, usar as coisas divinas para própria glória!
Muito lindo isso!

Já vi isso um milhão de vezes
Anjos abrindo contas e enveredando-se
Para as cousas mundanas e carnais

E as ovelhas abandonadas, coitadinhas
Lá no campo
Entoando: saber quantas estrelinhas...
Enquanto a orgia se faz culto

Quantos anjos corruptos, meu Deus!


Radyr Gonçalves



domingo, 4 de outubro de 2009

CÉU AMASSADO NOITE SEM LUA




Perdeu o sabor, o vinho na taça amarga. Como é amarga a vida quando os sabores das paixões calam-se nas noites. Esta é uma noite calada. Não ouço o canto rasgado dos mochos nem o aviso prévio das chuvas nas vozes estridentes dos tetéus. É uma noite sem lua, quase sem céu. O horizonte parece um papel amassado. Amassei um bilhete antigo e joguei ao vento, vai ver foi isso. Não há pessoas nas calçadas, todos se recolheram as suas ilhas. Deus, se tiver alguém sentindo o que estou sentido neste instante, tenha piedade. Eu ao menos rasgo o choro com vinho e letras. Tenha misericórdia dos que não têm as uvas nem as letras nestes momentos em que o céu amassado esconde a beleza da lua e o encanto das estrelas.
-
Radyr Gonçalves

SOLIDÃO DOMINICAL





O passado nesta fotografia parece uma cena de cinema antigo. Lembrei de um dos primeiros beijos que dei num verão dos anos noventa. Uma gaivota lá no fundo da paisagem voava solitária como se predissesse o apocalipse da minha solidão futura. O mar, azul pálido, destoava do azul alegre do céu daquele domingo fervente. Esta foto parece mística. Tem tantos elementos no seu pequeno diâmetro que parece um pequeno mundo impresso. Meu pequeno mundo de papel. Tem um choro embutido nesta fotografia. As pedras de Areia Preta pareciam búzios jogados à sorte a predizer minhas linhas. Eu vi solidão, cama vazia. Eu vi flores deixadas, alianças jogadas. Notei lá no fundo o sorriso frio do sol. Aquele beijo, aquela saliva mareada, aquele falta de sentimentos, ficaram registradas neste papel tão sem significado, mas tão cheio de lembranças que hoje montam o quebra-cabeça da minha solidão dominical.


-


Radyr Gonçalves

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A PACIÊNCIA DAS FLORES - VERSÃO II

O DIVÃ


Tenho derretido minhas estátuas de cera
E apagado certos vícios de biscuit

Noutros tempo eu varava a noite com os morcegos e os mochos

Tinha pesadelos com leviatãs e outros monstros marinhos
Sarças e espinheiros moldavam meus caminhos
Pragas do Egito destruíram minha vinha

A boca da masmorra assobiava meu nome
Do meu cárcere não dava pra ver a lua
Eu andava ébrio de nada beber

Hoje quando vejo o sol eu me ajoelho e rezo
Derrubei muros e ante-muros
Aniquilei meus inimigos com um único golpe de espada
E vejo daqui da minha câmara
Os cadáveres como palha no monturo
Daqueles que outrora me oprimia.

Hoje, vejo estátuas consumidas
E uma coleção de medos sendo empalhados.


-

Radyr Gonçalves

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

AS QUATRO ESTAÇÕES - REEDITADA



– PRIMAVERA

Apalpei os seios
Da primavera insana
Gozou pétalas
Ouviu-se os gemidos das violetas.



- INVERNO


Na choupana
Dois corpos abrasados
Fagulhas de trovões
Gozando relâmpago.


- OUTONO


Não se conteve na cama de flores
Surtou
Estridentes sussurros
Respondido pelo cair das folhas lá fora.


- VERÃO



Sorriu um sorriso de sol
Ofuscou-me as vistas
Cego
Tateie aquele corpo
Encontrei as chaves.


-


Radyr Gonçalves


terça-feira, 29 de setembro de 2009

SEXO DAS ESTAÇÕES - PRIMAVERA


Poemeto premiado em dois festivais...

Apalpei os seios
Da primavera insana
Gozou pétalas
Enquanto eu penetrava a margarida.
-
Radyr Gonçalves

SENSAÇÃO




Mordisquei o seu biquinho
E ouvi um gemido
Soou como o bolero de Ravel
Ao meu ouvido.

-


Radyr Gonçalves

CADÊ MINHA INSPIRAÇÃO


Texto premiado e escolhido pela editora CTDL para a antologia Poética 2009


Cadê minha inspiração?

Da minha cabana
Eu sinto a dor solitária
Da lua
Eu sinto a nudez da moça
De rua
Querem colo
Ternura
A lua quer beijo
A moça desejo
E eu minha inspiração

Cadê minha inspiração?
Da minha cabana
Eu sinto a ânsia das virgens
Deixadas
Eu sinto a dor das mulheres
Cansadas
Querem toques
As virgens
Querem cama
As mulheres

E eu só quero minha inspiração.


-

Radyr Gonçalves

domingo, 27 de setembro de 2009

Macallan Collection

Sonhei tomando um porre de Macallan Collection e acordei meio pelas canelas. Casas brancas, jardins, mulheres nuas e céu sem lua moldavam minha paisagem onírica. Estou ficando louco. Tive a ligeira impressão que vi a Monaliza do Da Vinci sorrir com um dente cariado. Vi uma moça do jardim de Monet ironizar sobre mim com as flores. Estão me escondendo algo. Duas codornas que adornam meu viveiro cochicharam baixinho; ouvi meu nome. O vento soprou algo no ouvido de um livro moribundo. Não há mexeriqueiras nas janelas, nem transeuntes batendo pernas. O jornal não veio, o mundo não deu noticias, o lixeiro não passou, nem o trem das seis. Ou o mundo parou ou eu morri. Álcool não combina comigo. Acredita que eu acabei de ver uma sereia escapar do aquário com a garrafa do bendito Macallan Collection? !

- Para um certo Rafael Teológo Bebum - metido a besta - rsss -

Radyr Gonçalves

sábado, 26 de setembro de 2009

O VERDE-LUZ DOS OLHOS TEUS


O verde-luz dos teus olhos
É o meu sol
Danço armado de flores
Na graça do teu corpo

Pasmo entre um passo e outro
Com a beleza do teu sorriso

Pode ser uma armadilha
Se for me consuma
Neste alçapão

Pode ser um labirinto
Se for
Não me deixe pistas

Pode ser a morte
Se ainda for
Mate-me
Poeta nasceu pra padecer
Não tem problema.


-
Radyr Gonçalves

DA MINHA HONESTIDADE, DA SANTIDADE MASCULINA, DO AMOR....



Escruto meus sentimentos enquanto o chá esfria. Pondero sobre o amor e a morte de algumas manias que deixei pra trás. Como o amor muda um homem. Na minha mais pura honestidade, nunca acreditei, sinceramente, que pudesse amar, de fato. Mas o amor existe na espécie masculina. É coisa rara, meus caros, mas creia-me; tal milagre existe. Um homem amando é esquisito. Normalmente um homem quer tragar para a cama um mar de mulheres. Instintivo isso. Mas quando se ama uma mulher é como se só esta mulher existisse. O amor no homem é uma pérola. Amar é místico. No homem, amar é mais que isso. Amar chega ser um degrau na escada da santidade masculina. Sabe por que, meus caros? Por que homem quer mesmo é provar de todas as maçãs, mesmo sabendo que todas são iguais. Por isso, senhores, mereço ser canonizado: Estou amando.


-

Radyr Gonçalves

O NASCER DE UMA ARTISTA

Grafith de Edvania Lima

(Para Edvania Lima)


Cheia de cismas
Desenhou a si mesmo
Olhou-se no espelho do si
E notou um dó musical

Descobriu a arte entre os dedos
A rosa artística
Os rabiscos que eternizam
E se fez deusa de um grafith

Soprou como sopra o mar a brisa
E se refrescou no rio do dom

Se fez no espelho
Como se parisse a si mesmo
Colocou toda a alma na folha
E renasceu.

-

Radyr Gonçalves

TREM FANTASMA



Era eu no trem
No vagão vazio
Era eu no vazio de mim
Acenando da janela

Era eu na janela
No clarão vazio
Era eu no vazio de mim
Acenando lá do trem

Era eu na fumaça
Na poluição que assolava
Era eu no vazio do riso
Da janela do trem fantasma.

-


Radyr Gonçalves

PADECENDO




Minha alma desalinhada padece no beco sem saída que os poetas chamam teimosamente de amor. Nada peço ao mar, senão que me lance de volta minha pérola. Eu quero minha poesia de volta. Desde de ontem que estou aqui na beira do cais da velha Ribeira chorando em versos. Meu violão desafinado entrou na minha: esta triste, melancólico, calado. Até o mar cessou o seu bailado. Qual artifício usarei para que o mar se compadeça de uma alma apaixonada? Estou perplexo com a força dos pescadores. Tenho me alimentado da energia destes homens que cortam o mar como uma lâmina. Queria ter essa força, talvez meu amor me visse como um herói, um deus do mar. Queria ter mais coragem, para ao menos me sacrificar do alto da pedra e assim morrer de amor.


-

Radyr Gonçalves

FELICIDADE BORDADA



Bordo minha felicidade com linha de seda e lua. Choro cristais para ornar colares de risos. Não adianta chorar lágrimas salobras se podemos adoçá-las com umas gotas de ternura. A vida é tão apressada para criarmos laços com a morte. Toda vez que ampulheta respira um segundo, morremos um pouco. Então pra quê abraçar o negror das vicissitudes? Bordo minha felicidade com fios raros de humor. Não choro amores, nem coleciono insônias. Não reverencio paixões que me dilacerem o fígado. Eu descobri que nada que me roube o riso vale a pena.


-

Radyr Gonçalves

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

PRECISÃO




O vapor dos teus olhos
Aquece meu eu

Eu preciso de um chá de calmaria
Navegar na placidez
Do silêncio dos teus braços

Eu careço da flor
Da flor rosada dos teus seios

Da flor ígnea das terras em ti encobertas

Eu preciso da chama provocadora do teu vulcão
Da tua mão espalhando carícias
Das tuas pernas ao meu encontro

Eu preciso desblusar teu busto
E me aninhar na paz rosa dos teus divinos seios.
-
Radyr Gonçalves

VOLÚVEL VOLÁTIL


Eu – de vapor, éter, fumaça
Passageiro de um trem sem trilho
Caminheiro de lugar nenhum
Neblina, garoa vadia –
Frio passageiro que passa
Como passa a vida que passa
Entre meus dedos de plasma.

*
Radyr Gonçalves

AOS SEM INICIATIVAS



Devore as ameixas

Mexa-se

ou elas te devora.

*

Radyr Gonçalves

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

JOANA



Apaixonada, deixou dez sambudos ainda verdinhos a cobrir com o cesto. A coruja esqueceu de aninhar os filhos. Fugiu com Mané Felipe numa noite quente. Vestida de duvida e remorso seguiu a trilha. Quantos espinhos cabem num seio revolto? Com quantos capítulos de vida se faz um sofrimento? Manoel beijou Joana como se beijasse uma virgem. Naquela noite, a lua banhou um casal errante e agonizou ao ver chorar dez frutos na mira do incerto destino. Anjos não julgaram o ato vacilante, apenas aninharam os pequeninos como uma galinha aninha seus pintinhos.
*
Radyr Gonçalves

DESOLAÇÃO



Não deixou nem as digitais nas louças. Partiu como se morresse. Morreu pra mim como morre agora a primavera. Eu não tenho mais como chorar. Meu orgulho boicotou minhas lágrimas. Estou cego, roto, cheirando a pão bolorado. Neurótico – revendo agendas e restos de perfumes que compunham a nossa história. Nada deixou. Levou a energia da nossa cama e o viço dos nossos lençóis. De nada tenho medo, mas neste momento minha glândula tireóide parece ter sorvido a última gota de iodo. Eu já não sinto meus pés. Creio que este fantasma que agora escreve – sou eu.
*
Radyr Gonçalves

JANELAS



Quando penso em você as janelas sorriem como se sorrissem pra imensidão do lá fora. Lá fora a brisa observa as janelas exibindo os dentes nas venezianas lustradas. Quando eu penso em você, penso que sou feliz, penso que a felicidade existe. Mas, não existe não, é só ilusão, como a ilusão de imaginar janelas sorrindo.
*
Radyr Gonçalves

O MENINO QUE FALAVA COM A LUA


Tinha quatro amigas. Para ele cada fase da lua era uma lua diferente. Falava de botões de flor, de lágrimas vencidas, de um pequeno passado minguado. Abria a portinha pra lua cheia entrar e ficava lá contando das outras três amigas. Nunca esquecera a dor de ver a mãe partir. Nunca esquecera a não fotografia do pai que não teve. Tinha fome de mão, de toque, de afeição. A lua amiga, cheia de seios, tocava invisível a face pálida daquele menino que nem imaginava que na lua está a morada dos espíritos das mães.

*
Radyr Gonçalves

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O CASEBRE NA BEIRA DO LAGO


A tristeza me fareja
Eu despisto as lágrimas olhando a revoada das andorinhas

Tem um casebre na beira do lago
Onde fico lendo as mentes das estrelas

Não dizem nada nas noites de lua cheia
Ficam lá
Olhando o sol banhando-se na imensidão do além das minhas vistas

Tem um menino aqui dentro
Que procura pipas no horizonte rasgado

Tenho uma nostalgia estranha coalhada aqui no meu peito
Não lembro dos retratos desse passado
Que teima em agonizar quando estou na beira do lago

A tristeza me fareja...
Eu despisto a dor contando resíduos de lua que caem no lago.

-

Radyr Gonçalves


CERTAS FOBIAS ADQUIRIDAS






Levo na barca
Sensibilidade pra pescar
Duas varinhas
Uma mágica e a outra também

Eu tenho medo do escuro
Por isso fiz conluio com os pirilampos
Eu tenho medo de amar
Por isso me casei com as flores da primavera efêmera

Levo no bisaco
Doce, poesia e pedaços quebrados de lua
Levo a imagem nua de uma estrela cadente
E a face dela bordada na mente

Eu tenho medo do mar
Por isso deságuo no rio
Eu tenho medo das sinas
Por isso fico a rabiscar destinos.


-

Radyr Gonçalves

O TEMPO E OS PASSARINHOS NA NOGUEIRA




No berço da maternidade
O tempo me disse
Que não passaria

Passarinhos nos ninhos
De uma nogueira
Desmentiam o tempo

Eu sei pouco de vida
E de poesia
Eu sei pouco dos anjos
E de teologia

Quando no berço
A ampulheta disparou
Eu era agora um herói
Sabendo pouco
Rezando pouco

Sem bula
Sem manual de instrução
Os passarinhos na nogueira
Tinham razão.


-

Radyr Gonçalves

MEIO MÍSTICO EM UMA TARDE QUENTE DE SETEMBRO


É necessário a fogueira e a bruxa
Assim como a ametista e os morcegos

Não creio no feitiço das fadas
Mas creio no pó das palavras
Que dilaceram meus rins

É necessário a varinha e o verso isolado
Assim como pedaços do alcorão e o manto virgem

Não creio nas velas das pregações
Mas creio nas lamparinas da vontade
Que animam o fôlego humano.

-

Radyr Gonçalves




PESCARIA





Voltei da pescaria
Com a malícia das sereias
E com a fúria das marés altas

Voltei molhado de sol
Com a barca vazia
E com mil idéias na cabeça.

-
Radyr Gonçalves

DA VENEZIANA DOS MEUS OLHOS





Pálida primavera dos meus sonhos
Sem violetas ou bromélias
Da veneziana dos meus olhos
Olho meu mundo aqui dentro
E já não vejo o paraíso.

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Radyr Gonçalves

SENTADO À BEIRA DE UM PORO



Sentado à beira de um poro aberto
Da covinha do teu queixo
Refresco-me na brisa
Do mar dos teus lábios.





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Radyr Gonçalves

segunda-feira, 21 de setembro de 2009




Estou só e sorrindo pras corujas
Dono da noite e de uma fatia da lua
Dono de um fragmento único de um corpo que me interessa
E não toco...

Estou só como os anjos ranzinzas
Espiando da janela as pernas brancas das meninas
Que se atropelam com seus pesados seios químicos

Estou só como só é o sol das almas
Eu em minha beleza de solidão
Cheio de raios que me partem em quatro versos
Que me vira ao avesso
E me torna um homem feliz
Apesar do alto preço
De ter o livre arbítrio
Dentro desta gaiola de quatro paredes.

*

Radyr Gonçalves

CHÁ DE CAMOMILA SEM PACIÊNCIA



O chá esfria na xícara morta
O mofo nos meus olhos denuncia minha amargura
A camomila pulula na agonia de ser chá de um moribundo

Noite passada eu sonhei com tigres de bengala
Eles devoravam meus poemas com pimenta e cominho
Eu não entendo essa selvagem ânsia do destino

Tem uma cadeira de balanço lá no sótão
Que balança sozinha rangindo fofocas
Macaquinhos bisbilhotam minhas cartas
E o lodo se apodera de um tesouro que guardei

O chá esfria na xícara morta
As noticias do jornal perderam a vigência
A camomila morre de tédio
E eu aqui a contar carneirinhos em plena luz do dia.



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Radyr Gonçalves

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

HISTERIA SUAVE







Suave
Até tua histeria
Cheira
Ao cio das gueixas
De Saitama.


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Radyr Gonçalves

VISÃO DA PRIMAVERA




Nua de pétalas e lua
Vestida de suor
E humor
Vi teu sorriso abrir a primavera
Aqui da janela.
*
Radyr Gonçalves

A PACIÊNCIA DAS FLORES



Pétalas
Calmamente
Abrem-se
Para a vida
Tecendo flores
Místicas

Pacientemente
Exibem-se
Esperando
A estação
Primavera

Para deslumbrar
A beleza
Na tela
Das minhas vistas.


Radyr Gonçalves

Copyright 2006

MISTÉRIOS E SEGREDOS




A planta dos meus pés
Guarda o segredo do caminho
Das tuas câmaras

A flor dos meus desejos
Guarda o mistério do labirinto
Das tuas glândulas sublimes.


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Radyr Gonçalves

Copyright 2009

Todos os direitos reservados

CORAÇÃO ARDENTE




Sofro de fogo nas coronárias
Entraram em erupção
Desde que ela sorriu um sorriso pra trás
E nunca mais voltou.



*
Radyr Gonçalves
Copyright 2009
Todos os direitos reservados

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O UNIVERSO DOS MEUS OLHOS






Nos meus olhos cabem os teus
Cabem teus seios
As tuas pernas
O teu mundo
Cabe nos meus olhos

Pena que não tenhas noção de espaço.
*
Radyr Gonçalves

SAUDADE COR DE SANGUE

A saudade lá – na parede
Presa no quadro
Eu não sei o mapa que me leva a ti

Nas minhas últimas tentativas
De buscar-te
Feri-me ao tentar burlar a cerca

Eis os meus estigmas
Essa saudade cor de sangue.



Radyr Gonçalves

APETRECHOS DE SOLIDÃO


Da janela
Uma coruja tagarela
Reza uma prece maldita
Tetéus publicam um sinistro
Ato noturno

E Ana no escuro
Sob a luz opaca dos próprios olhos
Da janela
A lua emudece
E nua

Ana
Pranteia a rua vazia
Chora Ana de choro solidão
Sob a critica da noite assombrada

Da janela
Olha ela
Pra dentro de si
E encontra o vazio
Preenchido
Por lembranças
Fotografias do tempo
Dores caladas
Figuras de papel

Da janela
Ana resgata
Pétalas dos lutos
Pérolas falidas
Frutos vencidos
Produtos não usados
E um vestido vermelho
Jogado no armário...

Da janela
Uma coruja tagarela
Aguarda o arrebol
Enquanto Ana conta nos seus botões
Os apetrechos da solidão
Que vaticinam sua iminente perdição.

Radyr Gonçalves
Copyright 2008





PEQUENAS GOTAS DE SENSIBILIDADE










´´Lembrança, lembrança, me embala feito criança´´





Escrevo risinhos
Lembrando dela
Falava-me de
Goiabas bichadas
De canções que nunca ouvi
De poemas que nunca li



Falava-me da tentativa suicida
Do Cristo redentor
Querendo saltar
Guanabara abaixo



Amo-a

De uma forma tão piegas
Que pareço
Um cidadão
De 1920
Num tempo moderno


Amo-a


Danem-se as opiniões
Danem-se os horários dos voos
Os horóscopos
E a tabela das marés
Danem-se o cítrico
O light. O diet, o diabético


Amo-a


Disso faço flores
Perfume
Poesia
Isso me causa
Insônia
Gastrite
Agonia


Eu Cheio de pedras e amarras
Distribuindo
Pequenas gotas de sensibilidade
Numa tarde quase noite
Que só lembra ela.





Radyr Gonçalves

Copyright 2009

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O OBSERVADOR





Eu olho o mundo com olhos de sono
Bocejo entre um olhar e outro
Essa garoa, esse frio, esse éter
Me dá uma indisposição desgramada

Mas vejo os urubus a vigiar de longe
E os escorpiões a planejar o golpe
Eu vejo a raposa tramando rinhas no covil
Eu vejo o gavião tirando a paz dos pombos

Entre um cochilo e outro
Eu vejo tuas bocas
A reclamar do café que derramou na blusa
Ou do barulho das crianças do vizinho...

Eu olho o mundo com olhos famintos
Me alimento entre um olhar e outro
Essas cores, esse teu cheiro, esses teus toques
Dá uma fome desgraçada...



Radyr Gonçalves

Copyright 2009

REVOLTA DE UMA TARDE DE AGOSTO




Revoltado
Lavei minhas mágoas
E fique a quarar sob o irônico sorriso solar

Eu não tenho culpa das fagulhas que irritam
Nem tampouco sou culpado pela poeira das estrelas

Eu também erro, meu bem!
Não sou juiz, santo ou Deus

Irritado
Levei o meu ódio pra ver televisão
Nada passa de fantástico nesses canais baratos
Nada novo no universo internético
Nenhuma voz nova no rádio

Chutei a bandeira fincada na lua
E fui lavar os pratos

Eu sou de lua, de magnésio, enxofre e cloro
Eu sou de ferro, de paixão, amor e ódio

Mais relaxado
Acendi o fogo, deixei ferver a água e fui preparar minha especialidade:
Nissim Miojo.



Radyr Gonçalves


Copyright 2009


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MENTIRAS BRANCAS








(Para José Maria de Freitas)




Toda segunda feira eu minto
Sobre tudo
Já não cabem nos meus papiros
Tantas anotações de pecado

Toda terça feira eu peso a alma
Quantas nódoas, quantas maculas

Eu vou pro inferno nesse caminho

Catapultas de guerra anunciam guerra
Aqui dentro

Mas minhas mentiras são mentiras brancas
Dessas que a gente cria
Para rechear os assuntos
Para reparar as brechas de um dilema roxo

Mas não justifica
Um homem não pode mentir nas segundas feiras

(Um homem tem a semana toda pra mentir).



Radyr Gonçalves

Copyright 2009

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terça-feira, 15 de setembro de 2009

MINHA MIOPIA DERRAMADA






Derramo toda a minha miopia
Procurando entre as letras das bulas
Um recado teu – só encontro contra - indicações
E a digital dos teus lábios num lenço de papel esquecido. .



*



Radyr Gonçalves 2009

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MORRER DE FRIO




Me perdi no teu olhar de garoa
Morri frio – mas feliz
Como se morrer fosse hibernar.

Radyr Gonçalves

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ANDAR SOBRE CÍLIOS






Caminhei no tapete dos teus cílios
Me perdi na distancia do teu olhar
Mas na realidade – eu nunca encontrei teus olhos.



Radyr Gonçalves
Copyright
2009

POEMA DE UMA NOITE DE MARÇO OU A PASSAGEM DA MÁQUINA DO TREM




A máquina do trem
Desliza solitária
Nos trilhos assombrados
Da ferrovia

Eu ouço o uivar agourento
De um cão vagabundo
Eu ouço o canto infeliz
De um bêbado moribundo
Eu o ouço a voz soturna
De uma ave noturna

Eu ouço minha própria voz
Ecoar baixinho cá dentro
Dos meus espinhos

Eu contabilizo
Minhas vicissitudes
Meus riscos
Minhas esperanças
Minhas desarmonias

Eu peso as minhas energias

Eu ouço o vento
Falar de amores
Eu ouço a chuva fininha
Falar horrores
Do clima
Do tempo
Da brisa assanhada
Das moças mimadas
Das mulheres ilhadas
Nos quartos da solidão

Ouço-me a ciciar venturas
Do dia seguinte
Flagro-me a pensar no sol
Na luz pós arrebol
Pego-me entretido
Com pensamentos de pele, boca, suor...
Lanço-me por completo
Nos braços de um xodó
Que é o tecido mestre
Da minha poesia de amanhã...

A máquina do trem
Desliza solitária
Nos trilhos assombrados
Da ferrovia...

Já o ouço distante...
Muito distante.


Radyr Gonçalves


Copyright 2009


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A LIBÉLULA E O MEU CONTO NOTURNO







Uma libélula
Pousou preguiçosamente
Na aba da minha janela
E ficou a meditar

Eu dimensionei cada pensamento dela
Trocamos frêpas
Ela entendeu minha falta de sono
Meu pseudo-abandono
Meus sonhos mofados

A libélula solitária
Repaginou meu passado
E vagarosamente abriu
As cortinas do meu teatro íntimo

Entendeu-me por completo
Debulhou meus segredos
Dedilhou meu rosário de erros

Mostrou minhas fomes
Minhas sedes
Meus poemas de seda
Meus contos noturnos

A libélula preguiçosa
Alçou um voo manhoso
E seguiu
Deixando-me com minhas redes de versos
Insônia e contemplação

Ela só queria voar
Eu só queria dormir.



Radyr Gonçalves
Copyright 2008
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CHÁ DE CANELA COM MAÇÃ




Na cadeira de balanço
Danço
Canto
Minto

Digo das coisas dos canteiros
Danço as danças de terreiro
Navego no mar
Com meu veleiro
Na cadeira de balanço

Projeto cismas
Amo em versinhos
Leio Drummond
Escuto Chico
Aumento um tom

Faço poesia
De palhaço
De aço
De fevereiro
De março
De Tom

Na cadeira de balanço
Eu danço um tango de Gardel
Eu pinto um quadro lá do céu
Eu vejo moças passeando
Nos portões eternos
Do inferno
E o calor arrebatador
Dos seus seios em chamas

Desenho rimas
Matuto Patativas
Leio cordel
Belisco Abaeté
Águas de março
E meu cansaço
É falta de VÂNIA
E seus deslizes

Faço contos
De garfos
Colheres
Talheres de prata
Mulheres baratas
Mas minha falta de calma
É curada
Com chá
De maçã e canela
E os acordes doces
Da sinfonia
Do tom da tua voz macia.



Radyr Gonçalves

Copyright 2008

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TEIMOSIA






Construí um castelo de areia na beira da praia do mar

Veio uma forte onda e o derrubou

As ondas dessas vidas são fortes demais

Mas erguerei um outro castelo


Areia é o que não me falta.

Alcancei o céu num maravilhoso vôo, lá do alto contemplei as belezas que Deus criou...

No entanto, veio um vento do leste muito forte e quebrou minhas asas...

Mas lógo alçarei novo vôo

pra quê quero asas se posso voar com a imaginação?


Imaginação é o que não me falta.

Construi um ninho de luz nas estrelas

Veio as trevas da noite e roubou meu brilho

As trevas dessas vida rouba-nos o brilho

Mas lógo construirei um novo ninho de luz


Luz é o que não me falta.

Construi uma trilha num deserto de espinhos

Veio o inimigo e me desviou do caminho...

Então me perdi, me feri...

Me encontrei fraco e abatido, com os pés cansados, cai.


Mas lógo abrirei uma nova via


Força é o que não me falta.


By Radyr Gonçalves
Copyright 1996


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